Desde os primórdios da Humanidade, a reprodução humana não sofrera transformações – o ato sexual era etapa imprescindível. Pois deixou de ser no dia 25 de julho de 1978, quando Louise Brown nasceu de cesariana no Hospital de Oldham, cidade industrial no noroeste da Inglaterra. Louise, de 2,608 quilos, era o primeiro bebê de proveta do mundo. Seu nascimento dava esperança a milhões de mulheres estéreis e apontava numerosos desdobramentos para a medicina genética.

O ginecologista Patrick Steptoe e o fisiologista Robert Edwards já vinham fazendo experiências com reprodução em laboratório havia 12 anos, quando foram procurados pelo motorista de caminhão John Brown e pela mulher Lesley, estéril devido a um bloqueio nas trompas de Falópio e que tentava há mais de nove anos ser mãe. Os médicos aplicaram os procedimentos em que vinham trabalhando: a paciente recebeu hormônios para que ovulasse no momento adequado, quando, então, teve o óvulo retirado. Este foi fecundado em laboratório, com um espermatozóide do marido, e alguns dias depois implantado no útero, onde continuou a se desenvolver. Steptoe e Edwards haviam feito o mesmo procedimento mais de 200 vezes, fracassando sempre. Daquela vez seria diferente. O feto resistiu e cresceu normalmente no útero de Lesley.

O êxito da gestação provocou debates envolvendo questões religiosas, éticas e morais. Muitos temiam que a nova técnica pudesse ser a concretização do sonho nazista de uma raça superior, geneticamente controlada. Outros, a possibilidade de se criar crianças defeituosas. Previram-se, ainda, os clones, concebidos diretamente a partir das células de alguém.

Enquanto isso, anunciava-se que outras três inglesas estavam grávidas pelo mesmo método. Mas elas preferiram manter-se no anonimato, ao contrário do que acontecera com os pais de Louise. Eles venderam a exclusividade da história à Associated Newspapers, empresa que edita o jornal londrino “Daily Mail”, por cerca de US$ 560 mil, e até fizeram turnê pelos Estados Unidos e Japão, exibindo a novidade. Em pouco tempo, porém, os bebês concebidos in vitro, ou seja, em laboratório, se tornariam comuns: em 15 anos, mais de 100 mil crianças nasceriam por esse método – entre elas uma irmã de Louise, Nathalie Jane, em 1982.

Em 10 de março de 1987, o Vaticano condenou, conforme O GLOBO noticiou no dia seguinte, “o bebê de proveta, as mães de aluguel, a inseminação artificial e todas as práticas destinadas a promover a concepção e o nascimento por meios não naturais” no documento de 40 páginas intitulado “Instrução sob o respeito à vida humana nascente e à dignidade da procriação”.

Em 20 de dezembro de 2006, Louise Brown deu à luz a um menino, concebido de forma natural e sem ajuda de tratamentos de inseminação artificial. Depois, Louise foi mãe de novo, também de forma tradicional. A irmã de Louise, Natalie, tornara-se, em 1999, a primeira pessoa concebida por inseminação artificial a ser mãe, dissipando as dúvidas dos médicos de que as mulheres nascidas a partir de tratamentos não poderiam ter filhos sãos.

Fonte: O Globo