Mãe genética disse que tentou, sem sucesso, fertilização in vitro e adoção por mais de 5 anos.

A vendedora de joias e influenciadora digital Luciana Salatiel, de 43 anos, conseguiu realizar o sonho de ser mãe após a amiga, a administradora de imobiliária Allana Cristina Rodrigues, de 24, se tornar uma barriga solidária e gerar o bebê. Com o nascimento da criança, há uma semana, as duas agora dividem as tarefas e atenção para cuidar do recém-nascido, Pedro Salatiel di Mendonça. “O carinho com o Pedro é uma soma”, disse a mãe genética.

Luciana, ou Lu Salatiel, como é conhecida, descobriu aos 14 anos que tinha uma atrofia no útero. Com isso, ela não poderia engravidar. Quando se casou, seu marido sabia do problema, mas, mesmo assim, decidiram buscar métodos para que pudessem realizar o desejo de ter um filho.

“Começamos tentando a fertilização in vitro. Há sete anos, fizemos um tratamento e minha irmã foi uma barriga solidária, mas o procedimento não deu certo. Depois, entramos em uma fila para o processo de adoção. Tem quase cinco anos isso e, até hoje, não conseguimos”, contou.

No processo de fertilização in vitro, é retirado o óvulo da mãe e os espermatozoides do pai e fecundados em laboratórios. Em seguida, o óvulo é colocado na barriga solidária. Assim, todo o material genético da criança será dos pais.

Em janeiro do ano passado, o casal decidiu tentar novamente uma fertilização in vitro. Porém, devido a um acidente, a irmã de Luciana estava com problemas de saúde, tomando muitos medicamentos e, por isso, não poderia novamente ser a barriga solidária.

Foi nesse momento que a influenciadora digital teve a ideia de recorrer à amiga. Allana, que mora em Caldas Novas, no sul de Goiás, era muito próxima da família e ex-namorada do sobrinho de Luciana, com quem, inclusive, teve um filho.

“Eu liguei para ela e disse que tinha uma proposta, que queria voltar a tentar fertilização in vitro e queria saber se ela emprestava a barriga dela. Eu gastei um minuto para falar”, disse Luciana.

O susto de Allana foi imediato. Diante do convite, pediu alguns minutos para pensar. “Nesse momento, eu me imaginei sem o Miguel [filho dela com o sobrinho de Luciana]. Eu me coloquei no lugar dela, sem a oportunidade de ter meu filho. E pensando nisso eu decidi fazer. Claro que a gente pensa nas dificuldades, se a gente era capaz, mas eu pensei no tanto que eu sou feliz com meu filho e que toda mulher tem o direito de ser mãe, experimentar isso”, contou.

Para que o processo fosse feito, Luciana precisou pedir uma autorização ao Conselho Federal de Medicina, pois Allana não tinha nenhum grau de parentesco com ela nem com seu marido. Após a aprovação, procuraram uma clínica especializada em São Paulo para fazer todo o procedimento.

A relação das duas sempre foi próxima devido ao filho da Allana, Miguel. “A Luciana sempre ia para Caldas Novas, buscava ele nos finais de semana, então sempre foi uma relação muito boa”, afirmou a jovem.

Porém, mesmo em boas relações, às vezes rolava um pouco de ciúmes. “Eu achava as vezes que ela ia roubar o Miguel de mim, porque ela sempre estava com ele”, se lembra Allana, rindo da situação.

Com a chegada do Pedro, no último dia 18 de abril, as duas passaram a compartilhar o carinho pelo bebê. “As pessoas ainda perguntam se eu vou permitir ela ter contato com ele. Mas eu vejo a parte da criança. Quanto mais amor ele receber é a melhor opção”, disse Luciana.

Luciana, que é a mãe genética de Pedro, e Allana, que deu à luz ao menino e se transformou em madrinha, têm acompanhamento psicológico desde o início do tratamento para a gravidez. As duas esperam que esse apoio ajude a trabalhar o assunto com Pedro à medida que ele for crescendo.

“A história dele já está contata desde o início. Como eu sou influenciadora digital e vendedora de joias, tinha 25 mil pessoas na minha rede e as pessoas acompanhavam o meu dia a dia na rede. Então, não tinha como esconder”, disse Luciana.

Luciana afirma que quer usar sua história para incentivar mais mulheres que não podem ter filhos a procurar alternativas como o útero solidário para realizar o sonho de ser mãe.

“A legislação precisa melhorar, dar uma ampliada. A fertilização in vitro precisa ser mais conhecida, divulgada. Quanto mais isso se populariza, mais acessível até mesmo financeiramente para outras pessoas vai ficar”, completou a influenciadora digital.

Resolução

De acordo com o Conselho Federal de Medicina, para ser um útero solidário, a mulher precisa ter um parentesco de até quarto grau com a mãe genética ou o pai. “Caso não seja possível a mãe, irmã, tia, prima, gerarem, é possível escolher uma pessoa que não tenha parentesco. Mas, para isso, é necessário uma autorização do conselho. Isso é para evitar a barriga de aluguel, que são mulheres alugando seus úteros para gerar os filhos”, afirmou o membro da Câmara Técnica de Reprodução Assistida do órgão, Adelino Amaral.

Ainda de acordo com o Amaral, a resolução foi evoluindo desde 1992, quando apenas parentes de 1º grau podiam ser útero de aluguel. “Não há uma discussão em pauta no momento para mudar a atual resolução, pois atualmente ela já é bem abrangente, democrática. Além disso, a procura por esse meio ainda é pequena, pois na maioria dos casos é possível que ocorra a gestação fazendo tratamento médico”, completou.

Fonte:  G1