Elas tinham uma vida comum. Um dia receberam a notícia devastadora: o diagnóstico de câncer. Depois da incredulidade, surgiram as dúvidas que circundam a doença: Vou morrer? Câncer tem cura? Como vai ser o tratamento? A doença pode voltar? Se a mulher está em período fértil, mais incertezas martelam a cabeça: poderei ser mãe?

Passado o primeiro impacto, vem a vontade de vencer. Duas mulheres enfrentaram essa batalha e conseguiram realizar o sonho da maternidade. É o caso da artesã Patrícia Balestero Sanches Siqueira, 39 anos, que aos sete meses de gravidez foi diagnosticada, em outubro de 2015, com câncer de mama. Ela abdicou do tratamento até Theo nascer. E da assistente de mídia Franciele Barbara Gonçalves, 28 anos, que logo após o tratamento foi surpreendida com a gravidez de Nicole, hoje com 5 anos.

Patrícia descobriu que estava com câncer de mama em um exame de rotina. O medo de perder o filho fez com que guardasse segredo até dez dias antes do nascimento. “Levei um susto muito grande”, conta sobre o diagnóstico. “Parei para pensar: como vou fazer quimioterapia com um bebê já ‘formadinho’. Não contei para o meu marido, para a minha família e assinei um termo de responsabilidade. Só contei um pouco antes de ele nascer porque corria o risco de morrer no parto por causa da anestesia”.

Somente após 32 dias do nascimento de Theo que Patricia, também mãe de Caio, então com 2 anos, aderiu ao tratamento. “Amamentei, fiz novamente a biópsia e iniciei o tratamento. O leite ajudou a diminuir mais ainda o tumor”.

No total, ela fez 12 sessões de quimioterapia e 30 de radioterapia. Em novembro de 2016, teve alta. Dois meses depois, descobriu um tumor benigno no tórax. Dessa vez, precisou retirar o nódulo. Há 15 dias, quando realizou os últimos exames teve a melhor notícia: ela está recuperada. Depois de superar as doenças, ela reacendeu ainda mais a paixão pela vida. “Não, não é fácil. Eu tive que ser forte, porque se eu desabasse tinhas outras pessoas que precisavam de mim. Hoje, tenho depressão, luto contra um estado de pânico, mas quando olho para o meu filho, vejo que valeu a pena ter lutado”.

Desafio

Franciele precisou lidar ainda muito jovem com um câncer. Aos 21 anos foi diagnosticada, em dezembro de 2010, com neoplasia maligna de nasofaringe. Junto com o tratamento, veio uma notícia devastadora: poderia ficar infértil. “Os médicos me disseram que por causa da alta intensidade do tratamento eu dificilmente poderia ter filhos. Mas naquele momento meu objetivo era me formar, seguir minha carreira. Ser mãe era num futuro bem distante”, lembra.

Isso porque um dos efeitos colaterais da quimioterapia é a infertilidade, que pode ser temporária ou permanente. Mas, para a surpresa de Franciele, um mês após o tratamento – com quimioterapia e radioterapia de forma simultânea, descobriu que estava grávida de Nicole. “Foi um susto muito grande, o tratamento não foi fácil, mas eu tive o apoio da minha família, amigos. Minha mãe brincava: ‘achei que eu ia perder uma e ganhei duas’.”

Lembrando de tudo que passou, Franciele conta que embora a filha tivesse o risco de ter mal formação ou problemas de saúde, a gravidez foi tranquila. “Eu sentia a responsabilidade de colocar uma vida em risco. Fiz um acompanhamento rigoroso e deu tudo certo. Hoje, posso dizer que ela é a minha vida. É a alegria dos avôs, do pai”.

Técnicas auxiliam

O diagnóstico de um câncer é encarado como um momento difícil na vida da mulher. Felizmente, os avanços na medicina têm contribuído para a cura ou controle da doença. Inúmeras técnicas existem para auxiliar a mulher que quer engravidar após o tratamento contra o câncer, como a do congelamento de óvulos ou embriões e o armazenamento de espermas, no caso dos homens. “Infelizmente, é uma questão que impacta na população de baixa renda porque estes procedimentos ainda não estão disponíveis pelo SUS. No entanto, atualmente, há quimioterápicos que afetam menos o organismo da mulher e que reduzem bastante o contato com o feto ou embrião”, afirmou o médico Gustavo Colagiovanni Girotto, diretor cientifico do serviço de oncologia do Hospital de Base e pesquisador da Funfarme/HB.

Tratamento tem registrado avanços

O tratamento de oncologia vem avançando em praticamente todos os tipos de câncer. O médico Gustavo Colagiovanni Girotto, diretor científico do serviço de oncologia do Hospital de Base e pesquisador do Centro Integrado de Pesquisa da Funfarme/HB ressalta que há quatro avanços no tratamento contra o câncer. “A primeira foi a quimioterapia; a segunda foi a radioterapia, a terceira, a terapia alvo, que temos a hormonioterapia e mais recentemente, a imunoterapia, que promove a estimulação do sistema imunológico por meio do uso de substâncias modificadoras da resposta biológica. São medicações que auxiliam e dão poder muito grande para que o sistema imunológico consiga controlar e ataque o câncer para que ele desapareça por completo”.

O oncologista lembra que a principal forma de cura para o câncer é a cirurgia. “A grande maioria tem que fazer a cirurgia e ter a doença localizada, e não metastática, que não se disseminou para outros órgãos”.

Os maiores avanços têm sido nos tipos de de câncer mais comuns. No caso das mulheres, o de mama e no colo do útero, e nos homens, o de próstata. “Se diagnosticamos no começo as chances de cura ultrapassam 90%”, disse o médico, acrescentando que as campanhas do Outubro Rosa, dedicada exclusivamente à prevenção do câncer de mama, e Novembro Azul, voltada à conscientização na prevenção do câncer de próstata, contribuem de forma significativa para o diagnostico precoce das doenças.

Mobilização

Para muitas pessoas, falar sobre câncer é sempre uma questão delicada. Segundo o Instituto Nacional de Câncer (Inca), a incidência da doença no Brasil em 2018 deve ficar em torno de 600 mil novos casos, sendo que a estimativa indica que três em cada dez tumores diagnosticados estão relacionados a hábitos evitáveis como tabagismo, consumo de álcool, sedentarismo, obesidade e exposição excessiva ao sol. Como forma de conscientização sobre a importância do diagnóstico, do tratamento e dos hábitos, neste domingo, dia 8, foi estabelecido como o Dia Mundial de Combate ao Câncer.

A data visa mobilizar pessoas e organizações para reforçar a importância de adoção de hábitos saudáveis, atitudes de prevenção, diagnóstico precoce e tratamento, fundamentais para o controle do câncer.

Fonte: Diário da Região