Há aproximadamente trinta e cinco anos, as conquistas da biotecnologia reprodutiva permitiram algo ainda não alcançado: a fecundação fora do corpo, ou seja, em laboratório, o que inaugurou a fertilização in vitro (FIV). A partir daí, muitos outros avanços vêm ocorrendo e permitindo que as pessoas com dificuldades para ter filhos possam formar suas famílias. Também, a partir desse evento, uma importante reformulação ocorreu na ordem da reprodução humana: a desvinculação entre sexualidade e reprodução, o que significa que um filho pode ser concebido fora do ato sexual.

Pouco antes da FIV, porém, a experiência da sexualidade já havia sido alterada com a chegada dos anticonceptivos, marco importante para a separação sexo e reprodução, visto que trouxe a possibilidade de se viver o prazer do sexo sem o risco da ocorrência de gravidez, do dever da procriação, um dever socioculturalmente difundido através dos tempos e frequentemente associado ao projeto de vida adulta. Ao se desvincular prazer e dever, vários favorecimentos daí decorreram, especialmente para as mulheres que ganharam maior controle sobre seus corpos, sobre sua fecundidade, com a possibilidade de opção sobre ter ou não ter filhos, planejar o melhor momento para engravidar, e assim, ampliar chances para a realização de outros planos de vida, além da maternidade. Mudanças como estas, sem dúvida, impactaram valores socialmente normatizados e inauguraram a nova proposta de sexo sem reprodução e reprodução sem sexo, inclusive incrementando ideias de ficção sobre a fabricação artificial de pessoas.

Nos dias de hoje, o projeto da maternidade/paternidade se apresenta cada vez mais racionalizado, planejado, opcional, embora seja, ainda, relevante ao projeto de vida pessoal e conjugal. Isso se confere quando ocorrem obstáculos ao desejo de engravidar. Muitas vezes não nos damos conta de que defrontar-se com os problemas da fertilidade significa estar diante de um momento vital importante, que chega trazendo uma crise de longo alcance. Repercussões na vida pessoal, conjugal, profissional, na rede social – amigos, colegas de trabalho, familiares, dentre outras, costumam estar presentes e interferir no cotidiano de quem se vê na contingência de não conseguir realizar o projeto da parentalidade, do desejo de ser pai/mãe.

Meses ou anos de espera por uma gravidez que não acontece traz uma vivencia comparável a uma montanha russa de emoções, uma situação de tensão e expectativa permanente que vai tecendo uma rede emocional capaz de afetar de modo importante a sexualidade de um casal.

Múltiplos aspectos estão aí envolvidos, frequentemente acompanhados de emoções negativas baseadas em ansiedade, estado depressivo, relacionamento interpessoal e conjugal, assim como na habilidade de lidar com frustrações, que podem originar disfunções sexuais, por comprometer o interesse, o desejo e a vibração ao toque.

As consequências sobre a fertilidade são esperadas, de modo que as interferências do desejo hipoativo e da aversão sexual; da baixa excitação e da disfunção erétil; dos distúrbios orgásmicos e da ejaculação precoce; da dispareunia (dor nas relações sexuais) e do vaginismo (espasmo involuntário dos músculos da região da vagina que provocam seu bloqueio), podem afetar a frequência da atividade sexual e portanto, limitar as chances de conceber.

Causas associadas a diferentes fatores como os de natureza psicológica, vascular, neurológica, hormonal, uroginecológica e medicamentosa, podem estar presentes no binômio sexualidade x infertilidade, sendo que os de natureza psicológica relacionam-se frequentemente a abuso sexual, conflitos conjugais, depressão, drogadição, estresse, problemas de autoestima, de identidade e problemas na imagem corporal.

Tanto na mulher como no homem o estresse sexual associado à infertilidade pode produzir ansiedade autonômica (calorões, transpiração, sensação de indigestão) ou subjetiva (impossibilidade de relaxar, nervosismo) e interferir nos procedimentos médicos, na qualidade do sêmen e do óvulo para os tratamentos de alta complexidade. Nos homens, há uma forte relação entre ansiedade, performance sexual e fertilidade, o que pode resultar em rebaixamento da performance e elevação do estresse sexual.

Embora os avanços da medicina reprodutiva tenham trazido a possibilidade de desvincular sexo e reprodução, quando a infertilidade surge e é preciso buscar ajuda dos tratamentos reprodutivos, a sexualidade assume, ou continua assumindo, papel central na vida do casal. Muitas vezes os procedimentos reprodutivos supõem o sexo programado, que pode envolver a perda da espontaneidade, da privacidade e da intimidade.

A contingência da infertilidade pode abalar a conquista da hegemonia do sexo prazeroso desvinculado do sexo reprodutivo e, novamente, prazer e dever são colocados em pauta trazendo um grande desafio aos casais contemporâneos, desejosos de constituir suas famílias sem prejuízo de uma vida íntima prazerosa.